terça-feira, 10 de março de 2015

DONDOCA

Dondoca acordou as onze horas
cobrando de sua empregada
o sagrado café na cama.
Disposta levanta e faz as unhas
das mãos e dos pés.
Prepara o cabelo e a maquiagem,
escolhe um vestido decotado,
põe perfume e langerie
escolhidos a dedo e a peso de ouro.

Dondoca despreza a pobreza
entra no taxi correndo com medo
da turba que passa e de seu marido.
Vai ao encontro de seu amante
no motel mais caro e distante
passar a tarde morrendo de prazer.

Dondoca no fim do coito
retorna para sua casa.
A geladeira está cheia
de água mineral Perrier,
presunto Parma, faisão e caviar.
Da cobertura aproveita para protestar
batendo nas panelas com força,
gritando palavras chulas contra a governante.
Alcança um orgasmo com ódio de classe.
Goza, goza, goza, da forma mais mundana.
Quem a vê confunde com o mal da vaca louca.

Dondoca espera seu marido traído chegar
deitada nua na cama do quarto de casal,
esperando como toda noite pelo ritual.
Pernas abertas para mais uma tentativa
de um rápido e insípido "papai-mamãe".

Dondoca agora até quer seu dono
pois apesar de velho e impotente
é ele no final quem paga as contas
da dondoquinha cadelinha burguesinha.
Um brinquedo de estimação
comprado em uma liquidação
da classe média em putrefação.


Tibor Wonten, 10 de março de 2015.

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